sábado, 5 de março de 2016

Comentários retóricos a respeito da fala de Lula em pronunciamento para a imprensa dia 04 de maio 2016



1. O ex-presidente faz uso de uma linguagem que atende ao seu propósito, que é claramente o de mobilizar as camadas mais baixas da população em seu favor (falar de pessoas sem dentes, de que escapou de morrer de fome...);
2. O ex-presidente anunciou que passará a rodar o país atendendo aos convites do PT, da CUT, do MST, etc. Parece uma tentativa de resgatar o PT da ruína moral e estrutural em que se encontra;
3. Foram colocadas duas estudantes vestidas com camisetas da UNE e da UBES (havia muita gente no local, mas estas "fardadas" foram mantidas ao alcance das câmaras). É um apelo à juventude, querendo gerar uma identificação entre Lula e a juventude;
4. O ex-presidente se coloca na condição de vítima das elites e dos controladores dos meios de conunicação, como se seus amigos das empreiteiras não fossem a mais poderosa elite de nosso país;
5. O ex-presidente fala dos milhões que recebeu das empreiteiras para dar palestras comparando-se com Bill Clinton, para evocar na população este esforço de afirmação do valor "dos nacionais". O que ele não explica é a diferença entre quem o convida pra falar e quem convida Clinton.
Por Martorelli Dantas

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Lula, uma paixão perdida (mas que ainda não largaram) ou Trocando em Miúdos 2




Por Martorelli Dantas
Tem coisas que a minha razão não consegue reduzir à logicidade, provavelmente por dificuldades e limitações minhas.
Por exemplo, eu vejo vários juristas (aos quais respeito e com os quais concordo), afirmarem que a "condução coercitiva" de Lula foi um ato abusivo perpetrado pelo juiz Sérgio Moro. Como advogado eu repudio com veemência posturas assim.
E nesta condição, serei um defensor ardoroso de que seja reconhecida a sua inocência para efeitos jurídicos até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória (e não apenas até a segunda instância). Este é um direito constitucional que ele tem e que para o bem de todos devemos salvaguardar.
Contudo, partindo desta premissa, ser capaz de crer na sua efetiva inocência e expor-me cognominando de "golpe" o procedimento investigativo que tem revelado de modo inconteste (em ações penais como a do Mensalão) que o PT estruturou um esquema de desvio de dinheiro público para financiar suas campanhas e enriquecer seus próceres é um desserviço ao país.
Entendo que há esperanças nas quais nos agarramos bem para além de qualquer racionalidade, como no caso de alguém que ama uma pessoa e espera ser correspondida. Mas com pesar digo aos meus amigos: "Vou te deixar a medida do Bonfim, não me valeu. Fico com o disco do Pixinguinha, sim? O resto é seu...".

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Lula e a arte da superação


Nenhum brasileiro que eu conheça, encarnou a possibilidade de superação como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele superou a fome, a pobreza, o preconceito; superou as forças que o  hostilizaram em suas primeiras campanhas para a presidência e venceu. Tornou-se o primeiro presidente civil deste país advindo das camadas mais desfavorecidas da sociedade.
Mas, infelizmente, depois de eleito presidente, o seu desejo de superação não terminou. Superou a moral, a ética, os compromissos democráticos... superou o sonho que nos fez sonhar. E agora, em seu canto do cisne, nos extertores de sua carreira política, ele supera os limites da desfaçatêz e do cinismo.
Contudo, o Brasil é capaz de superar Lula. É capaz de superar Cunha, é capaz de superar Moro e Mendes. Estamos vivendo uma "naciogênese", um tempo de parir uma nova forma de ser brasileiro, uma consciência e compromisso com a simplicidade e com a verdade.
Somos capazes de superar os preconceitos que os brasileiros têm com os brasileiros e mostrar ao mundo que um povo não está fadado a ser o que tem sido, ele pode se reinventar. Nada de messianismo ou soluções mágicas e imediatas, mas um doloroso parto do que seremos, é o que vemos agora.
Paz e Bem!
Martorelli Dantas
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sábado, 27 de fevereiro de 2016

Viver é mais importante que nascer - Parte I





Nunca acreditei que a vida de uma pessoa pode se tornar particularmente especial em decorrência do dia em que ela nasceu. Mas, certamente, a vida de uma pessoa pode tornar o dia em que ela nasceu especial. É o caso daquelas datas em que comemoramos o aniversário de alguém que nem mais está entre nós. Ouvimos notícias assim o tempo todo, quando anunciam que naquele dia se comemora o fato de que se alguém estivesse viva estaria comemorando cem ou duzentos anos etc.

Nascer é essencial, mas viver é que é de fato especial. Mas poucas são as pessoas que realmente estão vivendo, a maioria das que eu conheço apenas sobrevive, ou seja, gastam seus dias e sua energia apenas para preservar uma vida, que em si mesma é completamente desprovida de sentido. Resume-se ao passar de dias monotonamente iguais, dias nos quais somos carregados de uma lado para o outro pelas circunstâncias, as exigências da sobrevivência e suas momentâneas paixões. A questão é: como parar de sobreviver e começar a viver?

Responder a esta, que é uma das mais importantes que a sabedoria precisa responder, nao deve ser vista de modo simplista, tipo "cinco passos para...". Este tipo de abordagem pode até ser útil, mas, frequentemente, são apenas um entretenimento momentâneo. Além disso, nos afastam das questões mais profundas, que sempre são as mesmas: Quem somos nós? Qual o propósito da nossa existência? Qual a saudável relação que devemos manter com as coisas e pessoas que passam em nossas vidas? Contudo, responder a isso nunca vai acontecer em um seminário motivacional de final de semana ou lendo um artigo como este.

Bem, se você continuou lendo é sinal que ainda tem expectativas. Sinto-me no dever de lhe dizer algo que possa lhe ajudar (me ajudar, se eu souber mais do que dizer seguir a sabedoria que a graça insiste em me dizer). Vejamos quais são os principais desafios que estão postos diante de mim hoje:

1.     Estabelecer relacionamentos positivos, transparentes e de mútuo benefício com as pessoas. A qualidade de nossas vidas estão inevitavelmente ligadas à qualidade de nossas ralações interpessoais. Estas devem ser relações de luz, ou seja, relações que podem ser vistas em todas as suas dimensões, nada deve haver nelas encoberto. E isto não por motivos de moralidade, mas porque é extremamente trabalhoso manter vidas e relações subterrâneas. Se o que queremos é uma vida melhor, o que devemos buscar é leveza em tudo isso.
2.     Cuidar para que a nossa alimentação seja só alimentação, não uma forma de expressar frustrações. Assim como nascer, comer é essencial para sustentar a vida, mas esta, como todas as outras, deve ser uma ação inteligente. Devemos comer e beber somente aquilo que tenha o potencial de nos trazer benefício. E este bem não pode se limitar e hipervalorizar o prazer bucal. O objetivo lógico da alimentação é dar energia para que possamos realizar nossas tarefas. Contudo, muitos de nós utilizamos esta graça para agir compulsivamente. É como se estivéssemos tentando resolver um problema cardíaco ingerindo antitérmico.
3.     Distinguir entre a nossa mente e os nossos pensamentos. Muitos são os que confundem mente e pensamentos, o que é como confundir paredes com a casa. Como sabemos uma casa tem paredes, mas nao se confunde com elas. É exatamente por isso que é possível consertar paredes dentro de casa e construir paredes novas nela. Assim também em nossas mentes há pensamentos que ingressam nela e que nao trazem benefício, outros pensamentos podem ser transformados, bem como é bom fazer crescer em nós os pensamentos que têm o poder de nos fazer alegrar.


Continuo este texto na segunda-feira. Fiquem atentos...



Por Martorelli Dantas  
   


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domingo, 21 de fevereiro de 2016

Consumo intelectual



O que você lê e assiste (com real atenção) é mais do que um alimento que, uma vez digerido, é jogado fora. Aquilo em que atentamente pousamos os nossos olhos se converte em uma transfusão de sangue, passará a correr em nós e a se expressar também.
Por isso a escolha de conteúdos para consumo próprio e de nossos filhos é de extrema importância. De algum modo nós nos conformamos com àquilo que assistimos, isto tanto do ponto de vista linguístico, como de valores e condutas.


Por Martorelli Dantas     


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Sabedoria






A sabedoria não é uma virtude que nasce com alguns, como a beleza e a sensibilidade musical. É uma lenta e dolorosa construção interior. Precisa, antes de tudo, existir para consumo próprio, sua mais importante aplicação. A sabedoria é fruto da refletida observação, da capacidade de ruminar as próprias dores e alheias.
Deve ser oferecida com prudência e em doses adequadas. 

Os tolos chamam a sabedoria loucura, os arrogantes a denominam ingenuidade. Foi pensando nisso que Jesus prelecionou que "não se deve dar pérolas a porcos".


Por Martorelli Dantas


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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016


Filosofia do Amor


Houve um tempo em que todas as ciências eram meros ramos da filosofia. Foi com o advento da mentalidade moderna, excessivamente analítica e carregada da pretensão de alcançar a verdade em ralação a todos os objetos, que, a partir do séc. XVIII (e principalmente no séc. XIX), se fez o desenlace de saberes como a sociologia, a psicologia, a antropologia e a economia da mater scientia.
Não obstante, há algo que nunca foi ciência, que os homens cultos e civilizados dos nossos dias ignoram tanto quanto desconhecem a si mesmos e às razões mais profundas pra viver e se dar. Refiro-me à filosofia do amor. Estou convencido que quanto mais nos desenvolvemos tecnologicamente, nos habilitamos a conhecer os fatos que se dão do outro lado do mundo em tempo-real e nos informamos sobre a opinião, virtudes e tragédias das celebridades, estamos nos tornando cegos e surdos em relação aos nossos sentimentos e os das pessoas que vivem ao nosso lado. É como se nos estivéssemos conectados com o “fora e longe” e, para isso, nos desligamos do “dentro e perto”. Já disseram que internet é uma ferramenta que aproxima os distantes e afasta os próximos. Este texto pretende apenas lançar as bases daquilo que chamo de “amizade com o saber amar” (filosofia do amor).
Em primeiro lugar, é preciso evocar a consciência de que nós não existimos pra trabalhar, para procriar, para conquistar terras e riquezas. A única razão para que eu e vocês estejamos aqui e agora, compondo a história da raça humana sobre a Terra, é que este mundo precisa muito de amor e Deus achou que nós poderíamos ajudar nisso. Não é por menos que vida sem amor não é vida e que só o amor tem o condão de transformar um ser humano de dentro pra fora. Foi o apóstolo Paulo quem disse que “o amor tudo suporta”. Não no sentido de que quem ama aguenta todas as coisas, mas que é o amor que a tudo sustenta e quem não tem amor está no vazio, precipita-se no abismo.
Em segundo lugar, importa que saibamos que amar não é uma garantia de que não vamos sofrer ou fazer sofrer. Pelo contrário, a palavra “paixão” tanto significa desejo quanto dor, é que também no que diz respeito às emoções, entre o “bem e o mal Deus criou um laço forte, um nó, e quem viverá um lado só?”. A filosofia do amor nos ensina a arte do perdão, ter olhos pra enxergar que o presente é mais importante e maior que o passado. Se quisermos viver das amargas lembranças do ontem, desligaremos a graça do hoje e inviabilizaremos as doçuras possíveis do amanhã. São escolhas a fazer, decisões a tomar. Perdoar não é esquecer, é abrir mão do direito de cobrar.
Em último lugar, mas não com a ilusão de esgotar a filosofia do amor, posto que este é um saber sempre em construção, quero lhes propor que importa que nos entreguemos inteiramente ao mar do amor, sem barcos nos portos a esperar, sem rotas de fuga, sem um “se não der certo...”. Quando nos damos em parte não podemos esperar viver plenamente satisfeitos. O amor não se pode aprender sem a radicalidade dos revolucionários. Foi Caymmi que lançou para o infinito a vexata quaestio: “por que de amor para entender é preciso amar, por que?”. Nas palavras de Fernando Sabino, no final vai dar certo, se não deu ainda, é porque não chegou ao final. Filosofia do amor a arte da contínua superação.

Por Martorelli Dantas

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domingo, 14 de fevereiro de 2016

Consciências reveladora



Por Martorelli Dantas 

As três descobertas mais importantes que eu fiz nos últimos dez anos foram as seguintes:

1. Jesus não era sacerdote, era apenas um carpinteiro que gostava de pregar e ensinar o Evangelho às pessoas. Ele não criou uma religião ou uma seita (seus seguidores fizeram isso), ele deixou uma mensagem.

2. O ser humano não é uma espécie de anjo, cuja natureza se distingue essencialmente dos demais seres vivos que habitam o planeta, é apenas um bicho metido a besta.

3. As regras que ditam o nosso comportamento e valores são costumes, ou seja, o resultado de uma dada construção histórica, fortemente marcada pelas circunstâncias e conjunturas. Nada há de transcendental na cultura.

Devem ser obviedades para muitos de vocês, mas estas consciências mudaram muito a minha vida.

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Miragens


Por Martorelli Dantas
Eu já vi miragens, eram lindas. Mas decidi não orientar minha vida pela tarefa de alcançá-las.
Mas como saber o que é uma visão e o que é uma miragem?
Em primeiro lugar, é preciso saber que existem miragens e isto só se aprende depois de ter corrido atrás de algumas.
Em segundo lugar, é preciso pensar.  Se o que você está vendo é uma piscina de águas cristalinas e potáveis no meio do Saara, provavelmente é miragem. Bem como, se vc está vendo uma pessoa justa e perfeita, o problema não é dela, são seus olhos e tua mente que te fazem ver o que desejas que ali estivesse.

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sábado, 13 de fevereiro de 2016

Clarice Lispector



O amor é sofredor!         

                    
Quando Paulo, no capítulo 13 da primeira carta aos coríntios, elencou as características e virtudes do amor, por alguma razão, colocou em primeiro lugar esta terrível verdade: o amor é sofredor (algumas versões traduzem como "paciente"). Por que será que o amor é sofredor? Porque nós não escolhemos a quem amar, somos assaltados pelo amor. Quando nos damos conta, já estamos amando e aí é tarde demais. Amamos quem merece e quem não merece ser amado. Amamos quem também nos ama e quem nunca nos amará. Amamos quem reconhece e valoriza o nosso amor e quem nem se dá conta que ele existe. Sendo assim, o amor não poderia ser outra coisa, senão, sofredor.

 O amor é sofredor porque não escolhemos quando amar. Ele nos surpreende em momentos inesperados, quando juramos por tudo que é mais sagrado que vamos ficar quietos e serenos, é justo neste inopinado momento que ele se manifesta mais devastador. Chega dizendo que não sabe, não pode nem quer esperar. Chega se impondo, se anunciando imperioso como um general romano em cortejo vitorioso pela Via Ápia, abram passagem.

É sofredor porque confina a quem ama, não lhe deixa escapatória ou rota de fuga. É um sequestro, um rapto talvez. Algo que nos condena perpetuamente, que nos lança no terrível calabouço de ver a sua felicidade vinculada e dependente da felicidade do ser amado. Faz dele um órgão externo, um fígado que ganhou pernas e saiu por aí, onde quer que vá vamos nós, clamando para que a Misericórdia o livre de sofrer. Será sempre assim, depois de amar é o fim.

 Se o amor é sofredor e nada podemos fazer em contrário, precisamos aprender a amar, para, quem sabe, sofrer menos. Em última análise, é esta a razão de todo engenho e arte humana, sofrer menos. O que posso dizer aos meus leitores, que possa lhes ajudar e singrar as sendas de uma vida de "menos dor"?

Sem dúvida, o primeiro passo é não esperar do ser amado que lhe ame de volta, que seja como você deseja, que se comporte conforme os padrões mais nobres e elevados definidos por tua consciência. Faça isso não, só te vai fazer sofrer mais. As pessoas precisam ser elas mesmas, caso contrário não conseguem ter paz. O ser amado deve se sentir livre, deve se sentir autorizado a ser ele mesmo. Deve poder se despir diante de você, sem temer o olhar avaliador, que mensura, que aprova ou desaprova. Quem ama não deve estabelecer condições para o amor. 

 Em seguida, por pura estratégia de não sofrer, perdoe o ser amado. Você merece perdoar! Perdoar não é um gesto de grandes almas ou de pessoas especiais, é só uma manifestação de simplicidade e sabedoria existencial. De que adianta cobrar de alguém uma dívida que ele não pode pagar? O que foi dito não pode ser desdito, o que foi feito não pode ser desfeito. O que foi se foi e precisa "se ir" de nós também. Perdoar não é esquecer, é coisa bem mais objetiva e simples (sem que por isso seja fácil), perdoar é abrir mão do direito legítimo de cobrar uma dívida que o outro não pode pagar. 

 Em último lugar e, talvez, o mais importante... AME sem medo de sofrer. Algumas pessoas não se entregam ao amor por medo de que este amor lhes machuque. Tudo bem, estas pessoas não sofrem por causa disso? Sofrem, mas sem amar inteiramente. Passam a vida "dançando de macaco" (coisa comum antigamente, quando as moças punham a mão no peito do rapaz para ir regulando a distância do mesmo, um cuidado para evitar afoitesas). De fato isso é seguro, mas isso é dançar?

Na vida teremos dores e aflições, amar faz sofrer... tudo isso é verdade, mas alguém conhece coisa mais gostosa do que amar? Algo mais pleno e realizador? Como disse o Poetinha, "para isso fomos feitos..." para amar e ser amados. Como fez o carpinteiro viver de amor e morrer de amar.



Por Martorelli Dantas     


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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Um simples Canto


Quaresma, Irmã Solene

Por Martorelli Dantas

Nossas vidas são contadas pelo tempo, os anos e dias que vivemos. Se muitos, se poucos não sabemos, mas os contamos. Cada ano traz suas estações, cada dia tem diferentes estações também. Chamamos de aurora ou primavera, de meio-dia ou verão, de crepúsculo ou outono, de noite ou inverno... Tudo muda constantemente e muda diferente, de tal forma que nem as noites nem os outonos são iguais.

Saber viver as estações da vida é sabedoria. Deixamos a efervescência primaveril do Carnaval, para vislumbrar as cores sóbrias da Quaresma. Seja bem-vinda Irmã Solene! Que sua música de realidade se sobreponha ao balbúrdio do pobre Momo, que se veste de fantasia para postergar, ainda que por quatro dias, teus panos-de-saco.

Mas há aqueles para quem nunca é Quaresma (saudade de você Marcos Quaresma, lembrei de tua amizade ao escrever teu nome). Há aqueles que desatinaram, como na canção de Chico, em pleno Carnaval. Diferentemente do poema de Buarque, estes não são felizes, mas iludidos. Existe grande diferença.

Feliz é aquele que, vendo quem é e o que existe, não se deixa abalar por isso, mas aos pés do Altíssimo tudo consagra. Vamos aceitar o convite da Quaresma para nos sentar sobre cinzas. Não porque seja melhor que o Carnaval, mas porque é saúde para a alma, carecemos respeitar as estações de cada coisa. E agora é tempo de confissão e contrição, do cântico da "mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa".

Depois, passado este tempo, enxugaremos os olhos e veremos com humildade e alegria o mais belo estandarte que a humanidade já conheceu, a cruz que encima e ilumina o monte horrível, dela uma voz que diz apenas: Estás perdoado!